É comum ouvir, em nossos dias, comentários sobre possíveis soluções para que a sustentabilidade do planeta seja garantida. A luta da China para que se realizassem “jogos verdes” e para camuflar a densa nuvem de poluição sobre Pequim fez surgir diversas discussões a esse respeito; e no meio delas sempre aparece alguém com dados e estatísticas sobre níveis de toxinas no ar, quantidades de detritos nas águas e previsões desastróficas acerca da sobrevivência da amazônia.
Pra complementar o assunto e enriquecer a discussão com dados e com um pretenso empirismo, um outro busca, no Google, informações sobre o tempo de degradação de cada tipo de material descartado no ambiente (fiz isso agora… hehe): fralda descartável – 600 anos; garrafa pet – 500 anos; palito de fósforo – 2 anos; guardanapos de papel – 3 meses; embalagens de papel – 1 a 4 meses; jornais – 2 a 6 semanas…
Mas quanto tempo têm de vida aqueles papéis que não jogamos no meio ambiente, mas que jogamos em gavetas, estantes, armários e deixamos ali por julgarmos que os mesmos possuem algum valor documental e/ou sentimental?
Meses atrás repeti um ritual meu que acredito ser comum a toda e qualquer pessoa: tirei toda a papelada que guardava, revi a importância dela e descartei parte, para que a mesma pudesse entrar pra tabelinha e seguir seu tempo natural de degradação. Enchi sacos com o que tirei dali, e guardei mais um tanto para que, meses depois, pudesse repetir todo o processo.
Engraçado como algumas cartas, recados, bilhetes, faturas etc. que hoje têm valor podem perdê-lo em poucos meses, semanas ou dias. Dependendo do nosso humor no dia a gente olha pra alguns rabiscos e vê aquilo ou como uma relíquia de preciosíssimo valor ou como uma besteira que já deveria ter sido jogada fora. E impressiona a velocidade com que o descartável se acumula. Às vezes temos a impressão de que se fizermos uma faxina por dia, a mesma quantidade de papel sai daqueles armários pro lixo!
Mas o melhor que podemos tirar desses rituais – independente de os papéis serem jogados fora ou não – são as recordações reavivadas a cada releitura. É nostálgico perceber a mudança no formato das letras, no tipo de caneta utilizada, nas idéias ali expressas. E, o principal, é incrível notar como cada letra despendida por meio de papel e tinta, em algum tempo no passado, parece adquirir vida própria.
Relendo coisas que escrevi, parece que sempre aprendo algo. Parece que aquilo que ali coloquei sem a menor pretensão ganha uma função importantíssima de me ensinar uma nova lição (ainda que seja a de nunca mais escrever – ou pensar – besteiras como aquelas).
Não entendo bem o motivo, mas mais do que fotos, vídeos ou coisas do gênero, eu vejo na letra manuscrita a maior identidade de uma pessoa. Ler o que foi escrito de próprio punho traz a mim memórias mais profundas do que qualquer contato visual com uma imagem (cheiro também é uma coisa forte pra mim, mas falo sobre isso numa outra oportunidade).
Quando da morte de algum familiar ou conhecido, por exemplo, o que mais me comove é exatamente o momento em que se abrem as gavetas e os papéis manuscritos vêm à tona. Sinto como se ali a pessoa estivesse falando novamente, soltando o VERBO, expressando vida! É estranho (e talvez um pouco macabro, admito)…
Papéis, portanto, podem ter tempo curto de sobrevida quando lançados ao leo. Mas papel escrito (em especial o manuscrito) tem, pra mim, presença histórica incalculável e imensurável.
Por fim, pra ilustrar, cito aqui uma frase adolescente escrita com a letra da minha mãe em um bilhete de amor que acabei lendo há alguns dias, de quando a mesma namorava meu pai, em 1973. Na época, ela, com 15 anos, escrevia ao meu pai, que tinha 19: “No rio da vida, um afluente: o nosso amor!”. É brega pra caramba, eu sei! Também acho. Mas a leitura de algo assim tem sobre mim tal força que posso ser remetido quase que instantaneamente àquele momento em que os planos de minha concepção começavam a ser por eles traçados… hehe.

Todos (talvez 4 ou 5 pessoas) acompanharam minha saga rumo à definição do nome deste espaço.