A primeira luz que vejo… A luz mais bela, mais esplendorosa: a luz de minha cidade; brilhando, dando-me boas vindas. Assim nasci. Ali nasci. Em meio a uma natureza deslumbrante: em Formosa. E cresci em meio a essa natureza, desfrutando cada gota dela.

Desde bebê, indo experimentar as gotas da chuvinha serena formada pelo bater das águas nas pedras, na Cachoeira do Itiquira.

Desde criança, indo às margens da Lagoa Feia apreciar sua beleza, a beleza do nascer da lua, a mais linda lua, no mais lindo céu.

Cidade aconchegante, com gritos de crianças brincando nas ruas… Dentre eles, o meu, brincando e correndo com as outras crianças.

Ali cresci, vendo minha cidade se desenvolver; pouco, mas vi. Notei as mudanças, na maioria das vezes, inúteis.

Nunca levei uma vida de nômade nessa cidade. Morei sempre na mesma casa, com os mesmos vizinhos e amigos, brincando sempre na mesma rua, das mesmas brincadeiras…

Mas certo dia, por obra do acaso, os portões de saída da cidade foram abertos para mim. Vi-me saindo sem me exaltar. Olhei para trás e não vi nem ouvi sequer um “não vá, fique!” ou, pelo menos, um adeus! Formosa… Quando cheguei, me deu boas vindas; quando saí, nem notou…

Formosa… cidade de pouco apego. Pelo menos pra mim. Mesmo estando tão perto, não penso em voltar; quão menos em continuar aqui. Quero sair, mas para outro lugar; não para Formosa. Mas não sou dono do meu futuro, como não fui quando saí de lá. Talvez um dia, mesmo sem querer, eu volte, e volte a levar a vida que sempre levei, na cidade que nunca sentiu a minha falta…

Estou aqui, tão perto e ao mesmo tempo tão longe… Saí da cidade e, ingrata, ela nem percebeu. Ou, quem sabe, fingiu não perceber… Talvez porque saiba, tanto quanto eu reluto em constatar que, um dia, qualquer dia, os mesmos portões, ainda abertos, novamente verão a passagem deste seu filho.

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Escrito em 1997, após uma mudança da cidade para um sítio, próximo. Dois anos depois, votei.