Acordo com o barulho do jornal batendo na porta. O barulho que me acorda todos os dias… É melhor ir buscar o jornal antes que o cachorro o pegue.

Desço as escadas e abaixo-me para pegar o jornal. Entro novamente e fecho a porta. Espere aí! Algo lá fora me é estranho… Abro a porta e me deparo com uma paisagem totalmente diferente. As casas não são as mesmas, as árvores não são as mesmas, a rua não é a mesma.

Desespero-me. O que terá acontecido?! Só a minha casa continua a mesma no meio desta rua maluca cheia de mudanças.

Vou à casa do meu vizinho e melhor amigo. Amigo íntimo. Posso até chegar à casa dele gritando, xingando e fazendo brincadeiras. A casa dele está mudada, mas ele deve estar ali.

- Ô, barrigudo, preguiçoso! – chamo-o com tom gozador. Mas quem abre a porta não é ele. Deparo-me com um cara gigante, capaz de me matar com apenas um soco, e o pior de tudo: não gostou da brincadeira.

O “gigante” veio para cima de mim com uma cara de fazer medo em qualquer um e “Toc!”, o barulho…

Acordo com o barulho do jornal batendo na porta. O barulho que me acorda todos os dias… É melhor ir buscar o jornal, antes que o cachorro o pegue.

Desço as escadas e abaixo-me para pegar o jornal. A rua, no estado de sempre. Mas o jornal… cadê o jornal? Só consigo pegar os pedaços que não estão babados pelo cachorro. Desta vez não consegui ser mais rápido que ele… O estrago do cachorro foi maior que o do gigante.

—————————-

Escrito em 1997.