Marinho foi ainda mais longe…
Publicado por pvictor em Setembro 9, 2008
Primeiramente: não morri. Não escrevi na segunda (retrasada), mas ainda to vivo. A gripe foi embora e não deixou saudades…
Mas durante esses dias tive a oportunidade de ver e rever alguns filmes e programas de TV. Vi Amelie Poulin, 300, Apocalypto… todos filmes aos quais quis muito assistir quando estavam no cinema, mas deixei passar batido. Vi, ainda, alguns episódios de Pushing Daisies e revi o documentário “Além do Cidadão Kane”.
Tinha assistido a esse documentário há alguns anos e, de bobeira, parei pra pensar mais uma vez em frente à tela. Desta vez, aproveitei-me da democratização audiovisual proporcionada pelo YouTube, e foi bem mais fácil encontrá-lo.
Produzido em 1993, o documentário – pra quem ainda não viu – faz uma alusão, em seu título, à vida do magnata das telecomunicações americano, o jornalista William Randolph Hearst (na verdade, à sua versão hollywoodiana, um personagem fictício de sobrenome Kane). Mas o teor da obra elaborada pela BBC faz uma análise da trajetória da TV brasileira, com foco mais específico sobre a Rede Globo e seu papel na história social e política do nosso país.
Todos estamos acostumados a ouvir discursos – uns mais apaixonados que os outros – sobre a nocividade do jornalismo global (e brasileiro, de uma forma mais geral) no que tange à manipulação de informações conforme a vontade dos grupos que comandam os meios de comunicações (sobretudo grupos de interesses econômicos e políticos). Sempre existe alguém que presenciou (ou ouviu falar sobre) eventos - especificamente políticos – em que as imagens mostradas ao grande público por meio da TV não condiziam com o que de fato ocorreu. E é visível como, em toda e qualquer disputa político-econômica, os sem-terra, os sindicalistas, os grevistas, acabam sempre sendo os bichos-papões da história, pintados pela teledramaturgia jornalística.
Beyond Citizen Kane (o título original do documentário) faz uma crítica sobre o processo de concessões dos canais de televisão no Brasil, que – em sua gênese – eram feitas por meio de relações de amizades pessoais e políticas com os presidentes do regime militar, processo este que se manteve intacto até a CF de 1988, no governo do Sarney. Com base nisto, o produtor Simon Hartog analisa como os diversos canais que temos hoje, e que nos trazem entretenimento e informações, inserem em seus produtos o viés político de grupos que há muito deixaram de representar o pensamento hegemônico do povo brasileiro.
As críticas existentes no filme (que nos ajudam a compreender um pouco o desespero da Globo quando da não renovação da concessão à RCTV venezuelana) fizeram com que, inclusive, a emissora brasileira fosse à justiça em busca da proibição de sua exibição em território nacional. E ela conseguiu o feito.
Durante a década de 1990 apenas algumas cópias foram trazidas ao Brasil por brasileiros residentes na Europa e exibidas de forma clandestinas a pequenos grupos em organizações sociais e universidades, sob ameaça de intervenção policial. Hoje, 15 anos depois, podemos ter uma maior liberdade proporcionada pela internet e, por meio de canais como o YouTube, acessar facilmente esse e outros “filmes proibidos” (até a aberração porno-pedófila que a Xuxa protagoniza dá pra achar).
O fenômeno da influência midiática no comportamento social e político da população, no Brasil, é objeto de um estudo relativamente recente. Por muito tempo o mesmo foi praticamente ignorado, ou não cientificamente analisado. O professor Luis Filipe Miguel, da Universidade de Brasília, tem sido responsável por grande parte das revisões sobre o assunto e, fundamentado em autores como Pierre Bourdieu, o mesmo afirma que a mídia é, sem dúvida, o principal mecanismo de difusão de conteúdos simbólicos nas sociedades contemporâneas e cumpre o papel de reunir e difundir as informações consideradas [por ela mesma] socialmente relevantes, reduzindo a sociedade a meros consumidores. A mídia (em especial a televisiva) se apresenta, portanto, como a fonte da esmagadora maioria das informações de que os cidadãos dispõem para compreenderem o mundo social em que convivem. E, mais do que isso, é ela quem determina a formulação da agenda política: é ela quem dita quais são os temas importantes a serem discutidos.
Querem um exemplo esdrúxulo? Há alguns meses a menina Isabela Nardoni foi lançada da janela de um edifício, em São Paulo, e o Brasil inteiro se mobilizou em torno do tema. De modo igual, o menino João Hélio, arrastado por quilômetros até a morte, no Rio de Janeiro, sensibilizou a todos nós. Os crimes foram inaceitáveis e a comoção é completamente legítima. Mas quantos Joãos e Isabelas existem no meio dos grotões pobres deste país, também vítimas de violência extrema? Quantos morrem de fome ou são brutalmente assassinados e não geram em nós a mesma sensibilidade ou preocupação? Isso não ocorre porque somos frios, insensíveis, pessoas ruins… Isso acontece porque tomamos conhecimento, de fato, daqueles casos que o Jornal Nacional julga importante nos informar.
Tá, concordo que não somos tábulas rasas ou robôs que só se informam por meio da TV ou de veículos de comunicação de massa e que agem estritamente de acordo com o que eles dizem. Mas esses meios ainda são nossa maior fonte de informações e ficamos sabendo, na grande maioria das vezes, somente aquilo que eles decidem nos dizer, e da forma como eles o decidem.
Quem determina que o caos aéro é um problema nacional e a desigualdade social não é? Por que o primeiro tema ocupa nossas capas de revistas por semanas, bem como a grande maioria das manchetes televisivas, enquanto o segundo fica restrito a propagandas institucionais de governo?
Da mesma forma, durante duas décadas de ditadura militar, quem determinava se o regime era ou não o problema? Se a guerrilha era ou não um grupo de terroristas? Se movimentos como o dos metalúrgicos do ABC ou, na reabertura democrática, o das Diretas Já eram relevantes?
Essas e outras perguntas encontram respostas um tanto quanto libertadoras nesse documentário, que conta com opinião de grandes nomes como Chico Buarque de Holanda e o cientista social René Dreifuss. E problemas como esses – que envolvem um consenso conformado, preservado pela ludicidade midiática - só me trazem à memória aquela música do Rappa, que diz que “a minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego. Pois paz sem voz não é paz, é medo. (…) me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo, procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido.”
E quanto ao futuro, vislumbro um cenário melhor. A TV (em especial a Globo) tem perdido sua hegemonia no que diz respeito ao papel informativo da mídia e isto exige que os telejornais busquem cada vez mais uma suposta “credibilidade jornalística”. Porém, acima desse cenário, o que me deixa um pouco mais feliz é a quebra de paradigma, em relação às fontes dominantes de informação.
Com o advento de outros meios digitais, a diversidade de fontes tem sido ampliada exponencialmente, e cada vez mais grupos diferentes têm adquirido voz com ferramentas mais independentes, como o próprio YouTube. Os velhos grupos políticos e econômicos tendem – em minha visão otimista – a perder sua supremacia diante de fontes alternativas de informação. Assim espero.
Por fim, caso alguém queira se inquietar um pouco, seguem links para o documentário, no YouTube:
PARTE 1:
PARTE 2:
PARTE 3:
PARTE 4:

Documentários que você tem que ver « a princesa e o guerreiro disse
[...] Muito além do Cidadão Kane: Vi esse filme na faculdade logo após assistir o clássico Cidadão Kane. O filme que Roberto Marinho tentou por tudo nesse mundo proibir a exibição, mas ele não contava com o You Tube!. Paulinho fez uma crítica bacana aqui. [...]
mczbahiano disse
e depois que assisti “Zeitgeist” eu penso um
pouco além: enquanto nos distraimos com os
assuntos que a mídia expõe, tanta coisa podre
tá acontecendo ai por trás que não é mostrada e
ficamos como bôbos, olhando pro palhaço que tira
nossa atenção da lona do circo que pega fogo.